Sem proteção, vendedores desafiam Covid-19

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Com os vagões bastante esvaziados, o ex-pintor Marcelo, 48, era um dos cerca de dez vendedores que percorriam um trem da linha 7-Rubi da CPTM, na altura de Perus, na tarde da última quarta-feira (8).

 Assim como seus demais colegas “marreteiros”, como os próprios ambulantes se denominam, não usava máscara nem qualquer outro tipo de proteção contra a Covid-19.

“Como você vai ficar 12 horas de máscara, falando o tempo todo? A gente tem que falar, tem que dialogar com o passageiro, fazer nosso marketing”, diz ele, que não quis dar o sobrenome. Morador de Francisco Morato, na Grande São Paulo, tentava vender chocolates a R$ 5 a unidade.

Proibido, o comércio informal nos trens vem sendo combatido com mais afinco pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) desde o começo da crise do novo coronavírus. O número de ambulantes caiu visivelmente, mas muitos persistem.

Agentes de segurança com colete verde fluorescente, apelidados pelos vendedores de “vaga-lumes”, não se limitam mais em ficar nas plataformas das estações checando qualquer sinal de venda de produtos.

Eles têm viajado dentro de alguns trens, geralmente em duplas, o que torna mais arriscado o jogo de gato e rato para os marreteiros.

Marcelo, que há 13 anos vende produtos nas linhas da CPTM, diz que seu faturamento caiu 60% desde o começo da crise. Ele tem comercializado de 40 a 50 barras de chocolate por dia, em jornadas de 8 a 10 horas percorrendo vagões. Antes, vendia mais de cem unidades diárias, com lucro de R$ 1 por chocolate.

Com três filhos entre 16 e 26 anos, viu diversos colegas desistirem em razão da queda do número de passageiros, do aumento da fiscalização e da maior resistência das pessoas em comprar os produtos com medo de contrair o vírus.

Mas não pretende desistir. “Tem que ser persistente. Não dá pra só reclamar”, afirma.Morador de Carapicuíba (SP), Erick Santos da Silva, 27, diz que o problema maior são os “paisanos”, policiais e seguranças sem farda que surpreendem os ambulantes no ato e apreendem a carga.

“Tem uns que são mais duros, outros que enxergam mais o nosso lado”, afirma ele, que vende chocolates na linha 8-Diamante.

Com dois filhos, de 3 e 5 anos, ele diz que não pode ficar sem sustento. “A gente é ilegal, mas não tem jeito. Se eu não fizer isso, eles morrem de fome”.

O abastecimento do produto segue garantido, ao menos por enquanto. Erick compra a caixa com 20 chocolates a R$ 11 em um mercado em Carapicuíba e vende a R$ 1 a unidade. Lucro de R$ 9 por caixa, portanto.

Em um mês bom, consegue tirar até R$ 2.500 de lucro. Mas o faturamento é muito instável, porque depende de não ser pego e não ter a carga apreendida. “Já teve semana que eu rodei três vezes”, diz.

Com o aperto da fiscalização, os marreteiros desenvolveram novas técnicas. Erick, por exemplo, tornou-se um expert de “venda na curva”.

Fica numa extremidade do trem esperando os trechos sinuosos, em que a visão de seguranças é prejudicada pelo vaivém dos vagões, para oferecer seus produtos falando baixinho. “É meio arriscado, mas dá certo”, afirma.Os marreteiros também valorizam o horário entre 13h e 15h, quando os seguranças se revezam para almoçar e a presença nas linhas diminui.

É preciso também ter paciência e esperar nas plataformas para entrar em composições que não estejam “escoltadas”, ou seja, com os “vaga-lumes” dentro.Os amigos Ana Julia, 18, e Gabriel, 23, precisaram aguardar três trens passarem na estação Barra Funda até conseguirem embarcar em um que estivesse sem fiscalização aparente.

Ambos vendiam fones de ouvido, carregadores de celular, pen drives e cartões de memória, comprados num depósito em Carapicuíba que continua funcionando, apesar da quarentena decretada pelo governo do estado.O fornecedor, dizem eles, agora cobra R$ 1 a R$ 2 a mais por produto, o que achatou a margem de lucro. “E a gente não tem como repassar no preço, senão aí que não vende nada mesmo”, diz Ana Julia.

Moradora de Cotia, ela trabalha há quatro anos vendendo nos trens, seguindo os passos do pai e do irmão, também ambulantes na CPTM. Começa por volta de 9h/10h e vai até 20h/ 21h. “Eu tenho que pagar aluguel. Não posso ficar em casa”, diz.

Com estudo até o segundo ano do ensino médio, ela afirma que um dia pretende mudar de vida. “Quero ser aeromoça”, diz, enquanto checa no celular um dos muitos grupos de WhatsApp de ambulantes, em que os participantes vão informando onde está mais “moiado”, ou seja, com mais seguranças.

As linhas mais cobiçadas neste momento de crise, dizem os vendedores, são as que trazem trabalhadores de longe para São Paulo, ainda relativamente movimentadas. Entre elas, estão a 7-Rubi, que vem desde Jundiaí, a 8-Diamante, que passa por Carapicuíba, Barueri e Osasco, e a 10-Turquesa, que liga São Paulo ao ABC.

A pior, no momento, é a 9-Esmeralda, que acompanha a Marginal Pinheiros e está praticamente vazia em razão do fechamento dos escritórios das regiões da Berrini e da Faria Lima. Além disso, é reta, o que facilita a fiscalização dos seguranças.

A fiscalização nos trens é feita por agentes da CPTM, vigilantes terceirizados e, desde janeiro, também por policiais militares, a partir de um convênio firmado com a Secretaria da Segurança Pública.

“A prática é combatida, principalmente, pelo fato de os produtos comercializados não terem origem de procedência e, por isso, poderem estar associados a crimes como contrabando, roubo de cargas e furtos”, afirma, em nota.

Segundo a CPTM, os produtos apreendidos são doados para prefeituras. Se houver indícios de falsificação, os vendedores são encaminhados para delegacias.

De acordo com a CPTM, houve 80 mil ações de fiscalização em 2019, aumento de 57,3% em relação a 2018. Foram apreendidos mais de 2 milhões de itens. Já o número de passageiros caiu 73% desde o início da crise do coronavírus nos trens da CPTM.Também estão mais frequentes anúncios dentro dos trens, tanto em telas dentro dos vagões como por meio do sistema de som interno. “Sem ambulantes, a viagem será beeeem melhor. Não compre”, diz uma gravação em tom enfático.

Por ora, o desfile de vendedores de chocolate, balas, paçoquinha, caramelos, pipoca, batata frita, pururuca, água, cerveja, refrigerante e todo tipo de badulaque eletrônico segue firmePequeno dicionário do trem

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