Preso por um crime que diz não ter cometido, Erivelto se “vingou” virando advogado

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Antes de se tornar advogado, Erivelto Melchiades foi preso pela primeira vez aos 19 anos, em 2005. Logo após chegar à vida adulta, o jovem negro do Morro do Cantagalo, uma favela na zona sul do Rio de Janeiro, tinha uma série de incertezas na vida. Não conseguia emprego com carteira assinada e como o estímulo para estudar era pouco, restou uma opção para crescer na vida: o crime. Ele compartilhou sua história em uma publicação que viralizou no Facebook.

O caminho parecia ser fácil, porém se mostrou doloroso. Andava com um revólver dentro da calça quando foi enquadrado por um policial militar. Resultado: foi condenado por porte ilegal de arma. Melchiades dividiu a cela em um presídio com 121 homens, e o local foi feito para comportar 17. A carceragem da extinta Polinter, na Praça Mauá, era subterrânea, logo, além da superlotação, a sensação de sufocamento piorava ainda mais a permanência na cela.

Foram três semanas de violência física e psicológica diariamente. Recebeu pena alternativa de quatro anos de prestação de serviços à comunidade e limitações aos finais de semana. Entretanto, recorreu da decisão e conquistou liberdade provisória, pois apresentou, entre outros, bom comportamento. O morador do Cantagalo saiu pela porta da frente, motivado a escrever um novo capítulo em sua vida sem repetir as memórias recentes.

Melchiades voltou a estudar, conseguiu emprego como auxiliar de limpeza em uma creche da comunidade, e constituiu família. Era casado e tinha um filho. Sua vida ficou nos eixos por cerca de cinco anos, até que em 2010 foi preso novamente. Ao Metrópoles, ele conta que discutiu com a esposa, e ela foi até uma delegacia prestar queixa.

Preso injustamente

Ele estava em casa, quando atendeu a um telefonema da polícia pedindo para ele ir até a unidade e esclarecer o ocorrido. Quando chegou ao local, para sua surpresa, foi algemado e encaminhado a uma cela. O motivo? Uma denúncia por tentativa de latrocínio (roubo seguido de morte) que teria acontecido em 2005. Na versão de Melchiades, uma pessoa disse ter presenciado um assalto malsucedido e ele foi identificado como o autor do crime. Ali soube pela primeira vez que havia um novo processo contra ele.

“A testemunha ouvida pela polícia teria me reconhecido de assaltos que aconteceram no seu bairro, em Ipanema. Eu nunca soube disso e não foi anexado ao processo do porte ilegal de armas. Correu outro processo contra mim que depois de cinco anos eu descobri que havia. Não me lembro de ter passado por nenhum reconhecimento, é uma coisa que ficou em aberto”, afirma, hoje, aos 36 anos.

À reportagem, Melchiades relata que seu caso havia sido caracterizado primeiramente como peculato. Ou seja, desvio de dinheiro por funcionário público. “Hoje vejo que, como não solucionaram o problema no bairro, os PMs pensaram: vamos pegar alguém para ver no que dá. Aí virei uma estatística. É dessa forma que funciona para dar a resposta contra a criminalidade que a sociedade almeja.”

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