Dia de Combate ao Fumo: especialistas pedem atenção a adolescentes

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O ponto final teve dia: 15 de maio foi quando Josélia Leite, de 51, e o filho Lucas Sousa, de 21, resolveram abandonar juntos o tormento do cigarro. Outro roteiro em comum na história desses brasilienses é que iniciaram o vício muito jovens. Ela, com 20. Ele, com 16. “Parei principalmente para que o Lucas não seguisse com esse vício. Não queria ser esse exemplo pra ele”. Cada dia, desde aquela data, é uma luta para que o ponto final não se transforme em vírgula. Eles se conscientizaram porque tiveram informações que os efeitos do tabagismo, além de outros prejuízos à saúde, poderiam representar fatores de risco durante a pandemia do novo coronavírus.

 Neste sábado(29), Dia Nacional de Combate ao Fumo, eles completam três meses e 14 dias de força de vontade e de certeza da decisão. “Às vezes, eu sinto muita falta. Mas me sinto bem melhor, e muito feliz porque o Lucas também parou”, diz a servidora pública que chegou a fazer tratamento para parar de fumar pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. “Ainda bem que conseguimos parar. Naquele dia, acabaram os cigarros e, no dia seguinte, não tocamos mais em uma carteira. Antes, a sensação era de fadiga constante”, lembra o rapaz. A história deles, de repetição de comportamento em relação ao vício, é considerada comum entre os especialistas, cada vez mais preocupados com a fragilidade dos adolescentes diante das ofertas de cigarro tradicional, e de outros produtos como os com sabor, eletrônico e o narguilé.

A psicóloga Vera Borges, da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional do Câncer (Inca), chama a atenção para o fato de que os mais jovens acabam sendo seduzidos por propagandas frequentes e estratégias do mercado. “Os jovens ficam com ideia de que esses produtos alternativos fazem menos mal à saúde e que poderiam ajudar a parar de fumar. E isso não é verdade. Devemos ficar atentos às novas artimanhas das empresas tabagistas para conquistas de novos públicos.”

A especialista reitera que a nicotina provoca dependência química que faz com que o usuário do tabaco se exponha também à covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. “Ser fumante causa prejuízo a qualquer momento. Mas agora ainda mais. As pessoas levam a mão à boca, por exemplo. Uma vez fumante, a pessoa tem o risco aumentado de desenvolver a forma mais grave da doença pela fragilidade respiratória que o hábito de fumar provoca”.

O momento da pandemia fez como que as pessoas diminuíssem o acesso aos serviços de saúde, em função do momento. “Estamos estimulando que haja mais unidades de saúde pública dispostas a fornecer serviços de apoio aos fumantes. Pelo diagnóstico que fizemos, alguns estados têm fornecido serviços virtuais, individuais e também ao ar livre. Estamos nos reinventando para atender mais”. A especialista entende que o país é um dos líderes no combate à doença, mas a venda dos produtos em redes sociais, por exemplo, é um inimigo. “Conseguimos avançar bastante e o Brasil é um modelo por ter uma política de controle desde a década de 1980. Tínhamos uma taxa de prevalência (no uso do cigarro) em torno de 34%. Na última pesquisa, temos 9,8% dessa prevalência.”

O pesquisador André Szklo, também do Inca, ressalta que há uma tendência de crescimento de consumo de jovens nas últimas pesquisas e que é necessário fiscalizar as ações da indústria do tabaco e da aplicação da leis de combate. Ele recorda a importância de uma resolução da Anvisa que proíbe a exposição de cigarros ao lado de doces. “É um conjunto de causas que leva os mais jovens a experimentar o produto. Uma pesquisa que realizei mostra que nove em cada 10 adolescentes que tentam comprar o produto conseguem fazer isso no mercado. É uma porta aberta para eles avançarem na dependência”. No Brasil, é proibido a venda de cigarros a menores de 18 anos.

Outra observação do pesquisador é que tem crescido a compra de cigarros eletrônicos. No Brasil, é proibido, mas vendido de forma clandestina, “Faz tão mal quanto o cigarro convencional. O narguilé, que é legalizado, é muito usado entre os jovens e com capacidade alta de gerar dependência.”

André Szklo entende que os pesquisadores estão atentos ainda ao histórico das relações da covid-19, com jovens e o uso do cigarro. “A situação do isolamento social, estresse e o contato com adultos fumantes expõem o jovem. Em breve, teremos dados a respeito disso no Brasil em trabalho desenvolvido pela Fiocruz”. Para ele, é necessário que haja uma conscientização deste público sobre os efeitos em um grupo com menos temor, incluindo prejuízos como mau hálito, diminuição de fôlego e impactos a questões estéticas e saúde sexual. Um artigo recente publicado no Journal of Adolescent Health, neste ano, avalia que o uso do cigarro eleva a possibilidade que adolescentes desenvolvam formas graves da covid-19.

Aos 25 anos, José Ricardo Oliveira havia deixado de fumar, mas a pandemia fez com que ele retomasse o vício , mantido desde os 19. Era um habitual usuário de narguilé. “Infelizmente, não consegui manter a distância da carteira de cigarro. Acho que foi o estresse do momento.”

Além do estresse, a psicóloga Juliana Gebrim entende que as pressões sociais recrutam novos fumantes com tantos apelos da indústria. “Jovens passam por fase de identificação social e sensação de pertencimento. Muitas vezes, drogas lícitas e ilícitas são oferecidas para essas pessoas que estão mais vulneráveis e precisam de aceitação maior no meio em que vivem.”

Por outro lado, para Andréa Oliveira, a luta foi árdua. Três anos de terapia, apoio da família e amigos, e a “certeza do que queria” fizeram com que ela, hoje com 42 anos, deixasse o vício no cigarro definitivamente em 2018. A comerciante, por causa da pandemia, tem ficado mais tempo no apartamento em que vive, na cidade de Valparaíso de Goiás (GO). “Visitar” a janela do apartamento não a desperta para o que era um hábito adquirido desde os 17 anos, acompanhada do maço de cigarros, o isqueiro e o cinzeiro.

“A janela não é mais um problema. Mas tenho consciência de que preciso ficar vigilante. A ansiedade desses dias me deixa abalada. Acho que vou precisar procurar ajuda de novo.” O período de pandemia deve gerar atenção especial tanto para quem já deixou como para quem busca abandonar o tabagismo, segundo especialistas.A neuropsicóloga Juliana Gebrim entende que momentos como esse podem prejudicar a saúde mental. “É preciso atenção porque a pandemia pode ser, sim, um desvio no caminho de pessoas que estavam pensando em largar o cigarro.

A pandemia pode exacerbar questões de transtornos de ansiedade e também o desenvolvimento de doenças como a depressão. O isolamento provoca muito a exposição de algumas emoções que são conectadas pelo uso do cigarro”, explica.

A especialista detecta que as situações de tristeza e de insegurança poderiam fazer com que a pessoa volte a fumar.Mesmo dentro de casa não é possível, no entender dela, que a circunstância de isolamento desencoraje para a prática do vício, em vista de que o ato está relacionado à impulsividade ativada por “gatilhos”, que são as situações ou eventos que desencadeiam a vontade de fumar. Por isso, segundo a especialista, é necessário que as pessoas trabalhem as emoções.

“Somente em um processo de muita autoconsciência a respeito do prejuízo para outras pessoas faria com que o fato de estar em casa, por si só, faça com que alguém evite o cigarro”.São considerados raros os casos em que as pessoas conseguem se livrar do vício sozinhas. “Mas mesmo assim temos que ficar atentos para os episódios em que as pessoas trocam uma compulsão por outra, que também poderá acarretar diferentes prejuízos.”Os tratamentos para os vícios no cigarro podem ser lentos e requerem paciência para as pessoas e o cuidado permanente com recaídas. “A psicoterapia, a psicologia e outros campos da saúde podem ajudar muito as pessoas que têm o vício. Fazemos primeiramente terapia de redução de danos e encontramos caminhos para circundar o alvo para encontrar a cura definitiva”, afirma a profissional.

Nem todo o consumo de cigarro ocorre de forma legalizada e essa é uma preocupação dos pesquisadores no tema. Os jovens ficam também à vontade para comprar onde não há avisos de proibição. Cigarros clandestinos são vendidos principalmente em periferias brasileiras por preços ainda mais em conta.

Para colaborar com políticas públicas, uma parceria entre o Instituto Nacional de Câncer e a Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro (Comlurb) tem identificado há dois anos o uso de marcas ilícitas no Brasil por intermédio do lixo coletado. Os parâmetros usados para a classificação foram identificação de registro da marca na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e advertências sanitárias frontal, posterior e lateral na embalagem em acordo com a legislação nacional.

Ao todo, 11 profissionais da companhia de limpeza (entre garis de gravimetria e pesquisadores) atuam por parte da empresa com um centro de pesquisas aplicadas. “Com a parceria com o Inca, descobrimos que esses cigarros eram consumidos em áreas mais carentes”, diz a microbiologista Bianca Quintaes, da Comlurb.

A pesquisadora Alessandra Machado, do Inca, afirma que se trata de uma pesquisa inédita no Brasil de rastreio em prol da saúde de áreas mais necessitadas. “Estimamos agora não apenas pelo que o fumante diz, mas pelo que o lixo mostra. Nessa amostra, percebemos que mais de 90% dos produtos ilegais é de uma marca paraguaia. Não sabemos sobre o conteúdo do produto que entra ilegalmente no país.

Entendemos que colaboramos para que áreas mais carentes, como a zona norte, dá pistas do que poderia ser implementado. Fatores socioeconômicos interferem no consumo e faz mais vítimas.” A iniciativa mostra que todas as pistas podem ser importantes para uma luta que faz mais do que fumaça aos mais jovens.

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